quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Infernal

Eu tinha brigado com meu pai no começo da noite por causa de uma conta de telefone. Eu num telefone, ele no outro e o campo de batalha era o mundo abstrato e sem leis de uma conversa entre duas pessoas que conversam sozinhas. A argumentação tem um tom de guerra e cada frase ou entonação pode ser defendida ou esquivada com uma sequência de jabs.

Existe uma arte envolvida nessas situações, uma arte de guerra. Eu ouvi muito, assumi o erro e dei algumas justificativas com o objetivo de que ele não assumisse que foi por terrorismo ou leviandade que minha minutagem extrapolou. Eu tinha tido uma briga feia com minha namorada e a única maneira de consertar passava primeiro por uma ligação telefônica imensa. Quem já beirou finais trágicos de uma relação intensa sabe da criticidade de cada passo dado. Eu não queria me ver sem a minha namorada e fiquei louco quando me vi na iminência de perdê-la.

Enfim, meus argumentos não pagariam a conta de telefone, é uma dura verdade para quem tem 24 anos e não tem um emprego. Mas não passamos por apertos financeiros, e eu esperava que assumindo o erro a conversa pelo menos mudasse de rumo. Se ele me dissesse para que eu arrumasse uma maneira de pagar pelo menos parte do prejuízo eu não veria problema. Ou que eu pensasse em uma outra maneira de compensar. O que aconteceu de fato foi uma guerra telefônica lamentavelmente redundante. Em dado instante, ele me falou que hora ou outra poderia ter um infarto.

A conversa terminou mais ou menos naquele tom de que nada hoje iria mudar o destino de nossas vidas sensivelmente e eu fui para o karatê. Saindo de lá 9 e 50 telefonei para meu pai algumas vezes para perguntar se ele poderia me emprestar o carro pra eu ir tirar a foto da demo que eu estou gravando nessa semana. Ele não atendeu.

Cheguei em casa e vi que não tinha trazido a chave. Eram 10 e 42 a hora que o destino do planeta mudou e ninguém atendeu à porta. Telefonei insistentemente, bati à porta, bati na porta, toquei a campainha centenas de vezes, interfonei e me vi ali daquele jeito que eu estava, para fora. O carro estava na garagem, pois desci conferir. Telefonei para a minha mãe e a minha namorada para que elas telefonassem para ele. Pensei, "vai que ele está ignorando as minhas ligações". Vai saber. Mas elas não atenderam ao telefone e me lembrei que hoje a noite eu sonhei que estava preso no inferno. Sonhei que tinha entrado em uma piscina fechada e que quanto mais fundo eu ia por uns corredores submersos, menos eu precisava respirar. E lá embaixo ficava o inferno. Pensei em dar meia volta, mas umas almas me agarraram e eu já não conseguia respirar nem ver nem sentir nada muito concreto além de uma solidão cortante. Por um instante naquele sonho eu realizei a possibilidade concreta da existência da tortura eterna. De alguma maneira eu consegui sair com a ajuda mística da minha mãe.

E de alguma maneira me senti sozinho em uma dimensão paralela quando ninguém me atendeu. Bem parecido com o sonho. Passaram 15 ou 20 minutos desde que eu comecei a bater na porta e não ver sinal do meu pai. A idéia de arrombá-la começou a ficar mais próxima de se tornar realidade e fiquei preocupado. Ele tem vivido em estresse extremo por períodos seguidos nesse ano e imagens de ele infartando sozinho ou cometendo suicídio começaram a pipocar na minha cabeça e eu fiquei preocupado de verdade. Pensei que cada minuto que eu esperava que ele abrisse a porta enquanto telefonava e batia insistentemente representava um ponto avançando na curva descendente da probabilidade de que um salvamento surtisse efeito.

Eu estava no térreo interfonando e telefonando. Me lembrei de que meu professor havia falado sobre a importância de se ter um conhecimento básico em primeiros socorros e tentava imaginar o que fazer se encontrasse meu pai infartado no quarto dele. Me esqueci do número da SAMU e todas as consequências de perder meu pai de uma forma tão imbecil martelaram minha cabeça tanto quanto eu fazia a campainha da casa soar feito código morse. Subi correndo e cravei dois coices bem audíveis na porta da minha casa. E ela continuou fechada, me encarcerando na piscina do inferno. Foi quando eu percebi a presença de um vidro logo ao lado de onde eu tinha dado o coice e me admirei com a minha falta de percepção. Coloquei a luva do karatê para tentar quebrá-lo, mas não tinha espaço suficiente. Desci ao térreo novamente, procurei junto ao porteiro por algo mais sólido e menos espaçoso e achei o cabo de uma pá. Subi novamente e arrebentei o vidro esperando encontrar meu pai morto. Uma sensação que só os momentos de tensão mais intensos conseguem proporcionar percorreu meu corpo e dei mais três porradas com o cabo da pá no vidro, abrindo espaço o suficiente para que a minha mão pudesse passar e girar a chave e a maçaneta.

Foi então que meu pai apareceu. Uma quebrada na adrenalina que corria pelo meu corpo aconteceu e eu senti um misto de raiva com alívio. Ele se espantou com a minha atitude e me chamou de louco. Contei que esperava encontrar um cadáver no lugar dele e que se soubesse que ele continuava com tanta vitalidade eu teria simplesmente ido dormir em outro lugar ao invés de coicear e martelar minha própria casa. Mas nada pareceu surtir efeito. Continuei sendo louco. E agora eu também era vadio. Era um louco vadio que fazia da vida dele uma loucura. Um inferno.

Eu continuo aliviado por não ter que acudir ou encontrar um corpo sem vida de quem teria sido meu problemático pai. Mas também continuo sendo louco. E vadio. E amanhã é provável que eu tenha que procurar uma maneira de consertar o estrago, que agora tem um recorte de papelão no lugar. Meu pai foi dormir depois de 20 ou 25 minutos de discussão e eu espero que ele tenha um sonho tão bom quanto o que eu tive ontem a noite.

Foi um dia fora dos limites da normalidade, e foi infernal em diversos aspectos. Mas o desfecho foi bem diferente do que eu pensava. Se eu fosse um arqueiro e meu objetivo fosse acertar o centro o alvo, acho que a flecha teria saído para a culatra e me acertado o olho. Mas pelo menos ninguém infartou nem morreu tragicamente. De alguma forma isso é um lucro razoável.

0 comentários: