Perdi o amor da minha vida duas vezes,
E cada uma era um amor diferente,
Da primeira vez foi por burrice,
Nenhum deu conta de sustentar a inteligência,
Da segunda vez, mais esperto do que antes,
Contei com um azar,
Que me sorriu um sorriso desdenhoso e cheio de presas,
E me arrancou a carne do pescoço,
E sem direito a teimosia,
Hoje eu deito minha hemorragia e me deito ao lado dela,
Esperando por uma razão para estancar ferida aberta.
Quando perdi o meu avô,
Por um suicídio estapafúrdio,
Doeu-me tanto que atrofiou-me o sentido da dor.
Desatrofiou-se ele de ontem para hoje enquanto eu dormia,
E hoje eu vejo esguia,
A dor da perda que aos poucos sacrifica,
Os planos para toda uma vida,
Que talhei com todo o amor que deixei jorrar de veia minha...
E sob os meus escombros eu perco a vontade de procurar outra vez,
Por um amor que já perdi,
Ou pela semente de algo que possa vir,
A se assemelhar com o que até ontem eu senti.
Por enquanto, doído, sentido e ressentido,
Sozinho, doído,
E doído eu sigo doendo,
A dor de ter perdido aquilo que se chama de amor,
Por que dor é tudo o que sobra quando ele se vai,
E foi tudo o que sobrou-me quando ela se foi.
E olho um horizonte borrado por meus olhos marejados,
Sussurro, gemo e outra lágrima rola e cai,
O peso da próxima palavra dói e não sai...
Dói tanto que meu corpo reluta em pronunciar,
E vejo aquela figura linda aonde depositei tudo o que tinha para depositar,
E as minhas lágrimas são como as flores que se deposita num túmulo,
De alguém que se foi muito,
Muito antes da hora,
E retrocedo,
Um tremor me arrebenta e deixa em cacos,
Espalhados pelo chão,
Feito vento,
Feito sopro em dente de leão.
E antes de dar as costas e sair,
Com quase nada do que eu era,
Com quase nada do que eu tinha ou sabia,
Com as mãos atadas e a alma vazia,
Eu sussurro,
Ardo,
E gemo,
Finalmente,
Um adeus,
Que o vento leva,
Feito pó...
Feito alguém que se vai para não voltar mais...
E volto para casa,
Sozinho,
E sem vontade,
Pois nada pode tornar-me,
Mais do que os cacos, ruínas e farrapos,
A o que me reduzi,
Depois de feito em mil pedaços...
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