quinta-feira, 21 de julho de 2011

Sou um desajustado, hoje eu tenho certeza disso. Sou um desajustado completo. A vida é um jogo sujo e duro e eu não me acostumo a ela. A vida em sociedade me parece uma atividade doentia que deixa as pessoas bitoladas e sem noção da realidade. Não consigo pensar diferente. Não me ajusto.

Pensei por muito tempo que a minha relutância em levar uma vida comum de sacrifícios profissionais infindáveis fosse teimosia adolescente ou fantasia infantil da minha parte. Como se eu não tivesse crescido e compreendido o significado das prioridades escolhidas pelas pessoas. Não entendo a fissura pela própria vida profissional que as pessoas tem e nem o vício doente em acumular para si quantidades financeiras que dariam para melhorar a vida de dezenas, centenas, milhares ou milhões de pessoas. Acho a maneira como se tem levado a vida em sociedade um modo de vida doente e extremamente danoso à sanidade mental das pessoas.

Vou exemplificar para explicar melhor o que quero dizer. Tirei o trecho do próximo parágrafo d'O Ócio Criativo, de Domenico de Masi, um sociólogo italiano. Não vou tentar explicar o ponto de vista do livro em poucos parágrafos, mas eu o recomendo fortemente. Acho que a leitura desse livro, mais do que muito interessante, é necessária a todas as pessoas, sem excessão.

Ele diz o seguinte: "Nas grandes empresas já é um dado estável a quantidade de trabalho a ser feito diminui, a cada ano, em 3 a 5%. Teriam duas estradas diante de si: reduzir, a cada ano, o horário de expediente no mesmo percentual ou demitir 3 a 5% do pessoal. Escolhem sempre a mesma via, que é também a mais burra ... Imaginemos que, graças à tecnologia, uma única pessoa fosse capaz de produzir todo o PIB da Itália: seguindo a lógica das empresas, esta única pessoa deveria reter todo o trabalho e toda a riqueza dele derivada, deixando morrer de fome os outros cinqüenta e sete milhões de italianos."

Esse parágrafo me representa uma reflexão profunda da falta de senso das pessoas. Eu acredito que existe nelas uma curta noção de causa e efeito. Como se a responsabilidade sobre a consequência de uma ação fosse atribuída apenas a quem chegou a, de fato, realizá-la diretamente. Como no caso de alguém que passa a ser criminoso a partir do instante no qual inflinge uma lei. As responsabilidades possuem, na verdade, um alcance muito maior.

Grandes jogadores de xadrez tem a capacidade de formular um plano que o possibilita, até certo nível, saber qual o melhor conjunto de jogadas a ser realizado nas próximas, digamos, 8 rodadas. Acredito que a atribuição de responsabilidades às pessoas só é dada com vista no efeito da próxima jogada.

Outro dia eu li em algum site que algum multimilionário tinha acumulado 350 milhões de dólares em um ano. Em UM ano! Existe uma série de questões a serem respondidas acerca desse fato. Provavelmente esse homem de sorte ganhou esse dinheiro de forma lícita (a reportagem tinha citado o dono da Disney se não me falha a memória), mas isso é tudo para você? Saber que uma pessoa não infligiu as leis do seu país para juntar 350 milhões de dólares é tudo o que se precisa para esquecermos essa história e seguirmos a vida normalmente enquanto corremos atrás de nossos objetivos profissionais? Para mim, não.

Não é ilegal acumular todo esse dinheiro, não é. Mas quantas vidas poderiam ser salvas com 90% dessa quantidade? O sentido na vida de quantas pessoas que se fodem todos os dias para trabalhar em um subemprego miserável poderia ser resgatado? Acredito que essas perguntas são pertinentes. Alguém poderia dizer que ele merece essa fortuna, pois ele trabalhou para conquistá-la. Minha resposta seria que esse pensamento tem um pequeno engano. Só por que ele tem habilidade em jogar com as regras impostas pelas pessoas não significa que os recursos equivalentes aos de uma cidade inteira devam ser seus unicamente. O seu trabalho, caro leitor, vale quanto? Você acha que ele poderia chegar a valer quanto? Do que você abriria mão para que o seu trabalho valesse mais?

Eu não sou daqueles que justificam as atitudes de um ladrão de galinha para lutar contra crimes de colarinho branco e isso passa longe do foco dessa conversa. Tão pouco sou defensor do socialismo ou algo semelhante, eu discordo dessas filosofias. Mas eu acho que o mal que faz uma pessoa que acumula 350 milhões de dólares num ano enquanto o mundo continua miserável como está, é equivalente a o que um criminoso pode fazer. O que essa pessoa fez, 8 ou 10 jogadas à frente, foi privar desses recursos uma quantidade enorme de pessoas. Quem não tem dinheiro, hoje em dia, não tem direito à vida em sociedade. Então o que essa pessoa fez, caso não tenha privado essas pessoas de qualquer forma de subsistência, foi destruir com as pretensões de vida digna e de realização dos sonhos delas.

Aquele trecho do livro que eu colei aqui dá muito o que pensar. Pense que aquilo está acontecendo com o mundo e que o reflexo disso é que as pessoas ficam cada vez mais paranóicas. Cada vez mais a tecnologia dá conta de produzir mais com menos mão-de-obra. O que acontece é que quem possui essa tecnologia tira todo o proveito vindo dela para si mesmo. Para mim a situação é a seguinte: Não é por que uma atitude é permitida que se tem o direito de realizá-la. Talvez o problema do mundo, das pessoas que vivem nele, é a falta desse senso entre as pessoas. Acho que o motivo principal para toda a confusão na qual o mundo se encontra, para o desentendimento entre as pessoas, seja o mal destino que é dado aos recursos que existem. O que fazer em relação a isso tudo? Não se sujeitar a todas as regras impostas pelo mundo como está é um passo. Não se conformar é o maior passo que pode ser dado nesse instante.
Você concorda?

2 comentários:

André Maciel disse...

Apesar de discordar de um ponto ou outro, achei o texto muito bom mesmo e bastante coerente.

mardson machado disse...

Alô, Jean!
Em primeiro lugar gostaria de agradecer a sua visita ao CONTRA-AFRONTA.
Seu comentário é muito pertinente, inclusive, foi por conta dele que eu resolvi mudar o título do post. "ENXUGANDO O GELO". Acho que essa é a expressão que melhor se encaixa ao tema.
Abraço e apareça sempre.

Twitter: @mardsonmaxado