- Mas eu já tô chegando! - Exclamou Fulano ao telefone para que, por favor, o ônibus demorasse mais dois minutos para sair.
- Sei não, dá não – Josias achava que não daria certo passar o recado ao Professor Afeto Fofura, pois ele se encontrava em situações de desafeto.
- Vai lá e pede pra ele, faltam só quatro paradas pra eu chegar. Eu já to praticamente dentro do Manicômio!
- Seja racional, todo mundo aqui é louco. Você acha que o chefe vai dar ajudinha?
- Deve ser por causa do nome... Não custa tentar, rapaz. Vai lá e fala com ele.
Estavam indo todos juntos, exceto por um Fulano ou um Cicrano, visitar uma fábrica de doentes mentais e tentar vagas de estágio como matéria-prima júnior. Entoavam uma canção que lhes inflava o orgulho por fazer parte de algo tão especial:
“Somos todos Bobos,
Como trôços boiando n’água,
Boiamos, Bostamos, Bostinhas,
Sujando, correndo e passando,
O bobo mais lerdo pra trás.”
E repetiam o último verso com a alegria de um monte de sapos enlameados aos resquícios de um Sol de fim de tarde. A verdade é que não existia entre eles muita criatividade e a canção não tinha muita qualidade. Mas seguiram mesmo assim, muito animados. Já o Excelente Afeto fingia uma depressão intensa que dava-lhe a aparência de homem sério e preocupado com seus problemas relevantes.
- Professor, Fulano já está quase na porta do Hospício, não poderíamos aguardar por mais dois minutos?
- Não... Não! Nãonãonão! Nananina! – Suspirou o pobre homem em meio à sua depressão.
- São apenas dois minutos, Professor.
- Não insista, estou triste.
- Mas...
- Nãonãonão! Nananina!
Não se sentindo convencido por Josias, seguiu viagem mostrando que se deve ter pulso firme com níveis subordinados da hierarquia. Ele havia aprendido através da prática que ele próprio se tratava de uma pessoa muito importante, com certeza.
Fulano atendeu ao telefone quarenta e cinco segundos após tê-lo desligado pela primeira vez:
- Nada?
- Nada.
- O que ele disse?
- Resumidamente, disse não de uma forma bem clara.
- Putz... Se faltar a essa viagem não me complicasse depois, seria tudo bem, mas ela vai.
- Pior que não tem jeito mesmo. Ele disse agora a pouco que está tendo um dia difícil outra vez?
- Mas o que teve de difícil desde a hora que ele acordou até as oito e quinze da manhã?
- Pois é. Sabe como ele se sente poderoso nesses dias. O nível seguinte ao dele na escadinha deve sofrer as consequências da importância de sua fofura.
- É... pois é. Deixe quieto. Eu nunca gostei desse bostinha mesmo. Que barulho é esse? Tem alguém cantando aí?
- De novo. Esse é o oitavo bis.
- Boa sorte pra você.
- Falou.
Faltar à visita, apesar de prazeroso, ocasionaria em mais trabalho posteriormente, e trabalho a mais costuma ser desagradável. Mas não havia mais o que fazer além de descontar a raiva. E já fazia certo tempo que Fulano não descontava a raiva em alguém. “Mas por que descontar a raiva?” Perguntou-se Fulano, embrenhando-se em uma questão filosófica, porém breve. E sua conclusão foi a de que ele tinha motivos suficientes para descontá-la. Ele acreditava que em um mundo melhor, pessoas como Afeto não deveriam existir. Seria um contra-senso lógico.
A sensação de satisfação prévia começou a deixá-lo contente e aliviado. Além do prazer momentâneo, sua satisfação estaria deixando o mundo melhor.
Deitou-se então sob um pé de árvore de um lugar tranqüilo que havia por ali, ligou o MP3 player e sossegou. Uma música chamada A Song for The Dead começou a tocar. Quando ele a reconheceu, sorriu tranquilamente e fechou os olhos. O dia sugeria que um cochilo era adequado para a ocasião.
- A Song for The Dead, that is for you – Sussurrou, ao acordar bem disposto. Levantou-se e caminhou para o prédio principal do Hospício. Já sabia o que fazer, já tinha o que precisava, só faltava-lhe a companhia de um velho conhecido. Discou o número da agenda do seu telefone, aguardou, e disse com alegria ao ter a sua ligação atendida:
- Charles, meu velho amigo!
- Fulano! Continua ridículo ter um sobrenome desses?
- Com certeza. Como anda essa vida?
- Prefiro continuar te chamando de Fred. A vida anda boa. Boa. Tenho andado ocupado com uma profissão que me traz realização pessoal, dinheiro e felicidade.
- Pois era exatamente sobre ela que eu queria falar contigo. Tenho um trabalho daqueles pra você. Gostaria de ajudar um pobre coitado que vive no meio de uma porção de malucos diariamente?
- De certo que sim, gostaria muito. Pra quando.
- Pra hoje a tarde. Você pode buscar o rapaz na saída do trabalho às dezessete horas. O nome dele é Afeto Fofura e é uma pessoa inconfundível. Tem nariz e orelhas de porco e um carro com o rosto de um cachorrinho de pelúcia no capô e um rabinho no porta-malas.
- Certo. Você me espera lá em casa?
- Estarei lá às cinco e meia.
- Ótimo. Até então.
Charles era um amigo de infância de Fred. Eram inseparáveis desde o jardim. Charles costumava livrá-lo de situações desconfortáveis com pessoas desagradáveis e não perdia tempo com muita conversa. Sempre tiveram cabeça mais adulta do que a maioria de seus colegas de classe, e eram bem espertos, só agiam na surdina e encapuzados, assim não seriam facilmente reconhecidos. Costumavam encontrar-se de surpresa com a maioria dos babacas da escola e tortura-lhes até que os mesmos se sentissem ridículos e desesperados. A escola ficou alerta quando um grandalhão ricaço apareceu sem uma das orelhas depois do recreio. Ele tinha feito um pivete passar-se por ridículo pela décima vez. Aí então os dois precisaram dar uma pausa nas atividades para não serem descobertos. Mas agiam na rua, no caminho de volta da escola. “Saudosos tempos”, pensou Fred enquanto rumava para a casa de Charles no ônibus.
Lá chegando, bateu à porta e foi prontamente atendido pelo camarada.
- Pode entrar, sinta-se em casa. Quer jantar alguma coisa? Pedi pizza para nós três.
- Excelente. –Agradeceu enquanto tirava os tênis. Se dirigiu ao banheiro, trocou as roupas de trabalho por uma calça velha, uma camisa surrada e um tênis com bico de ferro.
O pobre nariz de porco se encontrava sentado com os braços e pernas amarrados num quarto com isolamento acústico que cheirava a flores do campo. Charles tinha em casa produtos de limpeza muito eficientes. Fred abriu as duas portas do quarto, e viu a imagem deprimente daquele homem triste.
- Boa tarde! – Sorriu animadamente.
- Você! Você! O que você? Eu vou chamar a polícia!
- E vai telefonar com o que, com o rabo? – Disse suavemente ao chuta-lhe o saco com a ponta de ferro do pé direito – Você pode cuspir os seus testículos se preferir. Talvez eles rolem até a delegacia. Fique de pé agora.
- Você me paga, seu bosta – sofria o pobre suíno.
- Eu disse: DE PÉ! AGORA!
Com pouca força e muita raiva, cinco minutos depois estava ele de pé, apoiando-se na cadeira.
- DE QUATRO E NÃO ME FAÇA REPETIR ESSA ORDEM, SEU BOSTA! E DE COSTAS PRA MIM! SE VOCÊ SUGERIR MAIS UMA VEZ QUE ALGUÉM AQUI ESTÁ DE BRINCADEIRA EU VOU TE ARRANCAR O SACO E TE FAZER JOGAR BOLÍCA COM ELE!
Prontamente teve sua ordem atendida e aplicou-lhe um chute com o mesmo bico de ferro do tênis direito bem no centro do ânus da vítima encurralada.
- Acho que você já deve ter bastante no que pensar por agora.
Saiu do quarto e foi até a cozinha aonde Charles esperava-lhe com a pizza recém entregada pelo pizza-boy. Serviu-se de uma fatia:
- Bem úteis esses tênis que você inventou. Acho que vou fazer um par pra mim.
- Pois é, eu também gosto.
Era uma pizza muito boa, de fato, e os 8 pedaços foram suficientes para os dois. E os 20 minutos de janta foram suficientes para conversarem sobre o andamento da vida de cada um. Viam-se com pouca frequência, mas a amizade mantida era a mesma dos tempos da escola.
- Não quero perder tempo hoje a noite. Digo... Quero descarregar e é só no que consigo pensar, cara. O mundo me encheu e não vai ficar vazio se depender de mim. Quero dizer que vou dar o troco. Não preciso me justificar.
- Fique de boa. Não vou puxar a sua orelha.
- Tem um palito de dentes?
Charles empurrou o paliteiro para a frente, deixando-o a mostra. Os dois levantaram-se e foram à sala acústica. As pontas de ferro dos sapatos faziam um barulhinho agradável de metrônomo enquanto caminhavam pela casa. Diferentemente dos grunhidos inaudíveis à distância de uma parede bem forrada que o senhor Mestre Excelência produzia com muito desgosto.
Abriram as portas isolantes e entraram.
Tec tec tec tec. Tec tec. Tec...
Parado a cerca de um metro e meio do porco abatido, Fred tirou o palito dos dentes como se fosse um cigarro, suspirou e disse.
- Você é mesmo um malandro, não é? Malandrão!
- Você vai ser preso quando descobrirem, seu bosta...
- Oinc oinc! OINC OINC!!! Malandrão!! Uhhuu!! Malandrão! Segurem esse perigoso malandrâo!!!
- FILHO DA PUTA!
- MALANDRÃO!!! MALANDRÃ-ÃÃO!!! Olhem só o MALANDRÃO!! Como vai o seu andar no pódium agora, malandrão!! Como é ser promovido a comedor de ferro???HEEEINNNN???? COME-FERRO!!
Ele dançava sem feições humanas. Como uma máscara de mostro. Era um louco dançante e feliz. O prazer da raiva fluindo era melhor do que aliviar uma diarréia presa por horas num ônibus lotado! Era melhor doque foder depois de 2 anos cheios de encheção e vazios de sexo! Era simplesmente aquilo lá. Sem tirar nem pôr.
- Como desempenhas tua nobre funçao de come-ferro, HEINNNN!??? - Disse-lhe com agrado ao aplicar o bico metálico de seu sapato entre os dentes do homem-suíno, fazendo voar pela sala um misto de gengiva, sangue e dentes.
- Você quer sofrer? Você quer piedade? Você quer tomar no seu cuzinho??? Me diga, cacetinho, qual é o seu pedido?? Sua vida parece muito correta e cheia de prestígio vista do alto de sua Fofura, hein, Fofão? Não é não? Ser fofo diariamente não te é um sacrilégio, mister Fofo? Você deve chorar diariamente de desgosto ao se lembrar de sua bunda enorme esmagando todo mundo em volta, não é malandrão??? MALANDRÃO!!! VOCÊ É UM MALANDRÃO, SABIA??? - Dando-lhe mais um chute forte na bunda. O som de osso quebrando sugeriu que uma das bundas presentes havia fraturado a bacia.
O cheiro de flores do campo não pairava mais no ar. Era um misto de bosta, com sangue, com mijo, com produto de limpeza. Um desagrado. Fred colocou sua máscara anti-odor e parmaneceu sentado de pernas cruzadas, como um velho, na cadeira de balanço do canto da sala. Suspirou...
- Tenho um aviso pra te dar, garoto - Fred tinha assumido o ar sério e impenetrável de um psicanalista - Não vou te dar a oportunidade de se arrepender por que não quero matar nenhum escroto se sentindo em redenção. Vou matar o filho-da-puta que você é! Você acha que por que vive sem chutar a cara de alguém todo dia você merece viver? Você acha que por que sabe o melhor jeito de contar até 10 ou por que ganhou estrelinha da professora você merece viver? Você acha que é o suficiente pra ganhar a medalhinha de direito à vida neste mundo?? Eu vou te dar a resposta. E ela é não pra você, filho da puta. Você merece se foder e só. O mundo não comporta e nem tolera mais pessoas do seu estilo.
Andou até o canto da sala onde estavam a máscara extravagante e o Charles coadjuvante. Pegou o trinta e oito que reluzia sobre a mesa como um presente de natal, mirou rapidamente e atirou entre os olhos do animal irracional que rastejava pelo chão.
Suspirou de olhos fechados e sentiu o prazer daquele instante. Tarefa cumprida, tomou um banho, trocou-se e:
- Depois a gente limpa tudo.
- Minha sala é automatizada agora. Ele já deve estar em estado líquido e bem diluído enquanto flui pelo esgoto.
- Mas já?
- Pois é. É um equipamento eficiente.
- Acho que vou voltar à atividade. O que você acha?
- Acho uma boa idéia largar essa vida de merda que você tem levado.
- Aprecio sua sinceridade. Vou dormir por aqui hoje a noite, beleza?
- À vontade. Acho que vou pedir mais pizza.
E o dia terminou como uma risadinha marota. A lua minguante sorria deitada no céu parecendo uma rede amarrada em dois coqueiros astrais.
- Boa noite, humanidade - sussurrou uma voz divina ecoando pelo universo.
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