

Já escrevi algumas cartas para a minha mãe falando sobre muita coisa, mas não me lembro de ter escrito para ela em terceira pessoa. Então achei que escrever publicamente sobre (e não para) ela hoje fosse uma boa idéia.
Textos sobre mães geralmente caem em clichês cheios de elogios exagerados e homenagens que nem sempre correspondem a uma sinceridade plena. Vou tentar ser diferente disso.
Uma das primeiras lembranças que tenho da minha mãe é de um dia que eu fui com ela para a faculdade. Eu devia ter uns 2 anos de idade, mas me lembro razoavelmente bem da sensação de estar com ela dentro da sala de aula. Ela cursou letras em Palmas no Paraná e se formou em 1990. Faz muito tempo, mas acho curioso que de quando em quando eu me lembro desse dia.
Minhas próximas lembranças são de uma das muitas vezes que ela me levou ao hospital com quase 40 graus de febre (ou um pouco mais do que isso). Me lembro das roupas que eu usava na época. Um casaco azul claro com umas listras vermelhas e um moletom branco com um desenho amarelo na frente. Lembro da sala de espera do consultório, do quarto no qual eu me internei uma vez. Não me recordo qual foi o motivo da internação, mas lembro de que eu vomitei depois de comer umas balinhas de doce de leite logo antes de ir ao hospital.
Tenho uns 21 anos, e isso é bastante tempo (é todo o tempo que eu tive até hoje). E muita coisa muda nesse intervalo, mas a imagem que eu tenho hoje da minha mãe é quase a mesma que eu tinha nas minhas primeiras lembranças. Aquela imagem bem achonchegante com mamadeiras de chá de cidreira, suco de maçã ou leite com nescau, e fogão à lenha no invernão. Quando penso nela sinto conforto. Conforto no sentido do conforto de uma poltrona reclinável massageadora e cobertores. Acho que eu nunca disse isso pra ela. Vou ver se digo amanhã pra ver o que acontece.
Minha mãe se curou de um câncer no estômago enquanto se curava da separação de um casamento que durou 17 anos. Ficou careca por causa da quimioterapia e aguentou. Minha mãe aguentou firme. Minha mãe sofreu muito e aguentou. Não sei como. Acho que eu não aguentaria passar por algo parecido nem que tentasse 2 ou 3 vezes. Na verdade ela ainda aguenta. A gente se aguenta. A gente tem que se aguentar longe um do outro. Aguentar saudade não é fácil.
Eu não posso desejar que o espaço se suprima num fenômeno físico inexplicável e Pernambuco fique a menos quilômetros do Paraná, então passo o ano desejando dinheiro. Montes de dinheiro. Pilhas de moedas de ouro e maços imensos de notas de 100. Pra poder ver a minha mãe com uma frequência bem maior do que a com que eu a vejo. Eu só faço uma visita por ano nas férias de final de ano, isso é muito pouco. Ficar longe dela é péssimo.
Eu gostaria muito de saber suprimir o espaço ou dilatar o dinheiro. Estou correndo atrás dos dois na faculdade.
Minha mãe é a pessoa que eu mais gosto. Acho que eu já disse isso pra ela. No geral, ela é melhor do que qualquer coisa quando não está de TPM. Eu tenho medo dessa sigla... Ouvir essas três letras seguidas me causa um arrepio na espinha periódico. As mulheres da minha vida costumam praticá-las com força de vontade todo mês. Mas isso é de menos... às vezes. Às vezes não. Mas às vezes é. O amor continua grande e o amor é mesmo maravilhoso. Siglas nem sempre.
A mãe é engraçada e uma vez mijou na calça de tanto rir. Foi na varanda de um apartamento que a gente ficou em Itapema em 99. Aquilo foi muito engraçado. Foi no mesmo ano que a gente se mudou de Cascavel pra Pato Branco. A gente não gostou muito de morar lá. Mas eu gostei da minha mãe naquele ano. Ela me dava um CD todo mês. Comprei uns do Guns, do Nirvana, Red Hot Chilli Peppers, Backstreet Boys... Bom...
Mãe é uma coisa engraçada. A minha por exemplo, é virgem. A minha vó também. E sei hoje como crianças são feitas, por onde elas nascem e tudo o mais. Mas um tempão atrás eu ganhei da mãe um livrinho com umas gravuras de um pessoal pelado que tentava mostrar todo o processo com um jeito eufemístico de se explicar. Isso me deu uma inveja de Jesus que nasceu do Espírito Santo... Eu devo ter perguntado alguma coisa indiscreta antes de ganhar o livro. Criança é sempre curiosa. Acho que foi logo depois que aprendi a ler.
Foi minha mãe quem me ensinou a ler quando eu tinha uns 3 ou 4 anos. Ela costuma falar que eu lia muito quando era novinho mas que depois fiquei vadio. Segundo ela eu fedo a preguiça... E deve ser bem verdade, eu gosto muito do sossego e do conforto. Mas também de estudar. Em parte por insistência dela e em parte por que dá dinheiro depois de um tempo. E de dinheiro eu gosto. Só gosto mais da minha mãe do que de dinheiro.
Tenho muita saudade da minha velha. Eu sempre digo isso pra ela. Tenho muita saudade.
Não gosto de saudade, gosto da minha mãe.
Os melhores anos da vida dela estão por vir. Muito antes de que eu aprenda a suprimir o espaço quero trazer ela pra passar um tempo aqui em Recife pra ver como é. Quero que ela conhecesse meus amigos daqui e veja um jogo do Palmeiras comigo. Quero levar ela pra conhecer o pessoal regional alternativo e os mamões de todos os centros da federal pra gente falar mal depois sentado na beirada do laguinho conversando eu mais Priscila mais ela. Mais um bocado de gente.
Eu quero um monte de coisas. Só quero minha mãe mais do que isso.
Eu amo a minha mãe.
Uma homenagem singela,
Para ela,
Lisiane tagarela,
A mãe mais bela,
Que eu já tive em toda a minha vida.