terça-feira, 26 de maio de 2009

Soneto do Banheiro Masculino

Era de uso simples, óbvio e até agradável a princípio,
Mas o limiar que existia entre o biológico e o artístico,
Some nas portas e paredes do banheiro masculino,
No manifesto da fissura enrustida pela forma do cilindro,

E a sabedoria professada em versos breves e apressados,
Escritos na surdina umidecida do cubículo apertado,
Afirma que todo infeliz que pisar neste chão mijado,
Tem um gosto duvidoso ou então é filho bastardo.

E quando o pobre do usuário do recinto mal lavado,
Procurar desesperado o que em tal hora é necessário,
Descobrirá ele que às vezes este trono é um calvário,

Pois de tudo que se pode encontrar no sanitário,
De convites ordinários a desenhos obcenos,
Sabe que não haverá de encontrar papel higiênico.

domingo, 24 de maio de 2009

Soneto à Espinha Mal Espremida

Do nada chegaste e do nada te infiltraste,
Cresceste em meus domínios, sem avisos nem piedade,
E agora, que de mim a bel prazer te aproveitaste,
Finge fuga esforçada, como se fosse a tua vontade,

Agora vem e te expressas, exibe o nosso contraste,
Diferenças de pele, de nossa tonalidade,
Em horas imprevisíveis e lugares improváveis,
Como quem quer que todos saibam de nossa inimizade.

E no desespero de extinguir com tod'a dor que me é causada,
De todas as direções dirijo esforços p'ra arrancar-te,
De minha vida, de meu corpo, do inchaço de minh'alma.

Reconheço tua bravura, nunca venço nosso embate,
Precisando conformar-me com a pena destinada, 
A mim de saber que tu vais de mim sempre fazer parte. 

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Margem

Sentado na varanda e pensando enquanto os piolhos lutavam para se locomover através de sua barba emaranhada, ele não via razão para levantar daquela cadeira de balanço. Há muito tempo não tinha obrigações a cumprir a não ser conseguir comida para si próprio. E a falta de obrigações o privaram da convivência social. Apesar de que mendigos vivam e convivam em cidades cheias de pessoas, para seus semelhantes humanos (semelhantes no aspecto genético) eles estão mais para postes quebrados e falantes ou cachorros sarnentos. Nenhum poste falante deve ter muitas obrigações a meu ponto de vista. Do ponto de vista dele também não.

Ele dá uma coçadinha naquela barba fedida e caem uns 4 ou 5 piolhos no chão. Seu cachorro (Snif) que está deitado logo ao lado olha para os piolhos que caem e pensa "pelo menos não são pulgas". Devem ser umas 5 horas da tarde e começa a esfriar, mas não é motivo de preocupação e ele permanece na varanda olhando o movimento da cidade.

Olhando o movimento? Por que raio ele olharia o movimento? Além de tudo o que há de ruim nessa vida, mal existe movimento naquele bairrozinho de merda a não ser uma criançada indo comprar pão para a vó ou um carro que passa a cada meia hora. E ele pensa nisso! Ele pensa: "que monotonia do cacete...". E o cachorro curiosamente pensa a mesma coisa, ele pensa: "que dia saco". E os dois raciocinam e chegam à conclusão de que a monotonia tem deixado suas vidas mais chatas do que poderiam ser de fato. 

E partindo do princípio de que suas vidas não têm tido lado bom em nenhum sentido, eles decidem quebrar com a monotonia. Levanta-se um, levanta-se outro, o mendigo junta seus pertences, o cachorro não, e começam descer pelas escadas. Moravam no sétimo andar para não serem alvos fáceis de bandidos sádicos ou de sádicos que não são bandidos. E também por que o número 7 é um número bonito. 

Chegam ao térreo, saem do terreno sem muro do prédio abandonado, atravessam a rua, passam pela padaria, um carro passa por eles, até que passam por um córrego. O mendigo se abaixa na margem, lava o rosto e bebe um golão d'água esperando não pegar ameba ou esquistossomose. O cachorro também. Levantam-se e continuam a caminhar. 

A cidade é grande e eles estavam no limite dela. O bairro no qual moravam era o último na sua direção - Sul, sudeste ou qualquer outra. Os dois caminham por umas duas horas com seu destino já mais ou menos definido. Conhecem suficientemente bem aquelas ruas. Snif descola um lanche numa padaria, o mendigo também e a obrigação diária dos dois acaba ali.

Chegam a um bairro relativamente próximo do centro. Vêem-se ali uns postos de gasolina, uns supermercados, um trânsito movimentado e bem mais do que uma padaria. Passam discretamente por todas aquelas pessoas mais ou menos parecidas com eles dois, entram numa ruela, forçam um portão velho feito de compensado e passam por ele. Sobem até o sétimo andar reparando na possível existência de uma vizinhança perigosa e nada encontram para a sua felicidade. Estão sozinhos naquela contrução velha, inacabada e disponível. Cada um joga seus pertences no chão de uma provável sala ao lado da varanda, um senta-se recostado na parede, o outro deita sobre as patas cruzadas e suspiram. O vento sopra de leve.

A mureta da varanda inacabada é baixa, tornando-se perigosa. Mas nenhum dos dois tomaria um porre ali em cima. Assim, sentado e recostado ou deitado sobre os membros cruzados, eles permanecem. 

Lá embaixo, no mundo, um carro buzina, um ônibus pára, um homem fuma, outro conta uma piada. Uns riem e outros choram.  Todos cheios de barulho e iluminados pelos postes de luz que começam a acender. O cachorro se coça e voam algumas pulgas. O homem percebe e se preocupa. Assobia para o cachorro, coça a barba fedida e dá um sorriso de satisfação.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Ontem à noite eu zanzei pela casa. Estudei entre longas pausas, fumei na varanda, comi, me debati... e uma hora, quando terminei de escovar os dentes, me olhei no espelho com meus olhos vermelhos de conjuntivite, pensei bastante cheguei a seguinte conclusão: 
- Grandes bosta...

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Píru


Pode-se procurar pela satisfação pessoal e pela paz em diversos lugares, mas acho que aqueles valores de amor e amizade, por mais que sejam uns clichês bobos e bregas, são realmente excelentes.

Eu sou muito satisfeito com as minhas amizades. Posso dizer isso. E não só isso, como eu realmente sou satisfeito com elas. Às vezes acho que minha passagem pelo mundo já valeu a pena só por ter vivido algumas das minhas amizades. Elas me fazem sentir que o mundo é grande. Problemas me parecem menores por causa de algumas amizades que eu tenho. Elas são mesmo muito importantes pra mim.

Quero dedicar algo de bem bonito que eu não sei escrever hoje a uma amizade minha que costuma me dar a sensação de que viver vale a pena e de que o mundo é grande. Quero dedicar a ela, que aumenta a concentração de alegria e satisfação na minha vida. Eu me sinto grato por tê-la conhecido e tenho com um carinho imenso o dia que isso aconteceu na memória. Quero dedicar a ela, por transformar o dia frustrante no qual eu queria estudar, mas acordei com conjuntivite, um dia chato, desconfortável e cheio de notícias ruins num dia que me deu gás para passar pelos próximos dias. Ainda que as notícias ruins persistam ou tornem-se piores, o gás que ela me dá faz com que eu queira e tente melhorá-las. Dedico a ela, que transforma uma existência que às vezes tende à enfadonhice (todo mundo se queixa disso) numa existência gostosa e confortável. Viver perto dela é bom. É boa a vida perto dela. Dedico a FERRAZ, Ana Priscila da S.

sábado, 9 de maio de 2009

Minha Mãe


Já escrevi algumas cartas para a minha mãe falando sobre muita coisa, mas não me lembro de ter escrito para ela em terceira pessoa. Então achei que escrever publicamente sobre (e não para) ela hoje fosse uma boa idéia. 

Textos sobre mães geralmente caem em clichês cheios de elogios exagerados e homenagens que nem sempre correspondem a uma sinceridade plena. Vou tentar ser diferente disso.

Uma das primeiras lembranças que tenho da minha mãe é de um dia que eu fui com ela para a faculdade. Eu devia ter uns 2 anos de idade, mas me lembro razoavelmente bem da sensação de estar com ela dentro da sala de aula. Ela cursou letras em Palmas no Paraná e se formou em 1990. Faz muito tempo, mas acho curioso que de quando em quando eu me lembro desse dia.
Minhas próximas lembranças são de uma das muitas vezes que ela me levou ao hospital com quase 40 graus de febre (ou um pouco mais do que isso). Me lembro das roupas que eu usava na época. Um casaco azul claro com umas listras vermelhas e um moletom branco com um desenho amarelo na frente. Lembro da sala de espera do consultório, do quarto no qual eu me internei uma vez. Não me recordo qual foi o motivo da internação, mas lembro de que eu vomitei depois de comer umas balinhas de doce de leite logo antes de ir ao hospital.
Tenho uns 21 anos, e isso é bastante tempo (é todo o tempo que eu tive até hoje). E muita coisa muda nesse intervalo, mas a imagem que eu tenho hoje da minha mãe é quase a mesma que eu tinha nas minhas primeiras lembranças. Aquela imagem bem achonchegante com mamadeiras de chá de cidreira, suco de maçã ou leite com nescau, e fogão à lenha no invernão. Quando penso nela sinto conforto. Conforto no sentido do conforto de uma poltrona reclinável massageadora e cobertores. Acho que eu nunca disse isso pra ela. Vou ver se digo amanhã pra ver o que acontece.
Minha mãe se curou de um câncer no estômago enquanto se curava da separação de um casamento que durou 17 anos. Ficou careca por causa da quimioterapia e aguentou. Minha mãe aguentou firme. Minha mãe sofreu muito e aguentou. Não sei como. Acho que eu não aguentaria passar por algo parecido nem que tentasse 2 ou 3 vezes. Na verdade ela ainda aguenta. A gente se aguenta. A gente tem que se aguentar longe um do outro. Aguentar saudade não é fácil.

Eu não posso desejar que o espaço se suprima num fenômeno físico inexplicável e Pernambuco fique a menos quilômetros do Paraná, então passo o ano desejando dinheiro. Montes de dinheiro. Pilhas de moedas de ouro e maços imensos de notas de 100. Pra poder ver a minha mãe com uma frequência bem maior do que a com que eu a vejo. Eu só faço uma visita por ano nas férias de final de ano, isso é muito pouco. Ficar longe dela é péssimo. 
Eu gostaria muito de saber suprimir o espaço ou dilatar o dinheiro. Estou correndo atrás dos dois na faculdade.

Minha mãe é a pessoa que eu mais gosto. Acho que eu já disse isso pra ela. No geral, ela é melhor do que qualquer coisa quando não está de TPM. Eu tenho medo dessa sigla... Ouvir essas três letras seguidas me causa um arrepio na espinha periódico. As mulheres da minha vida costumam praticá-las com força de vontade todo mês. Mas isso é de menos... às vezes. Às vezes não. Mas às vezes é. O amor continua grande e o amor é mesmo maravilhoso. Siglas nem sempre.
A mãe é engraçada e uma vez mijou na calça de tanto rir. Foi na varanda de um apartamento que a gente ficou em Itapema em 99. Aquilo foi muito engraçado. Foi no mesmo ano que a gente se mudou de Cascavel pra Pato Branco. A gente não gostou muito de morar lá. Mas eu gostei da minha mãe naquele ano. Ela me dava um CD todo mês. Comprei uns do Guns, do Nirvana, Red Hot Chilli Peppers, Backstreet Boys... Bom...
Mãe é uma coisa engraçada. A minha por exemplo, é virgem. A minha vó também. E sei hoje como crianças são feitas, por onde elas nascem e tudo o mais. Mas um tempão atrás eu ganhei da mãe um livrinho com umas gravuras de um pessoal pelado que tentava mostrar todo o processo com um jeito eufemístico de se explicar. Isso me deu uma inveja de Jesus que nasceu do Espírito Santo... Eu devo ter perguntado alguma coisa indiscreta antes de ganhar o livro. Criança é sempre curiosa. Acho que foi logo depois que aprendi a ler.
Foi minha mãe quem me ensinou a ler quando eu tinha uns 3 ou 4 anos. Ela costuma falar que eu lia muito quando era novinho mas que depois fiquei vadio. Segundo ela eu fedo a preguiça... E deve ser bem verdade, eu gosto muito do sossego e do conforto. Mas também de estudar.  Em parte por insistência dela e em parte por que dá dinheiro depois de um tempo. E de dinheiro eu gosto. Só gosto mais da minha mãe do que de dinheiro.


Tenho muita saudade da minha velha. Eu sempre digo isso pra ela. Tenho muita saudade. 
Não gosto de saudade, gosto da minha mãe. 
Os melhores anos da vida dela estão por vir. Muito antes de que eu aprenda a suprimir o espaço quero trazer ela pra passar um tempo aqui em Recife pra ver como é. Quero que ela conhecesse meus amigos daqui e veja um jogo do Palmeiras comigo. Quero levar ela pra conhecer o pessoal regional alternativo e os mamões de todos os centros da federal pra gente falar mal depois sentado na beirada do laguinho conversando eu mais Priscila mais ela. Mais um bocado de gente.

Eu quero um monte de coisas. Só quero minha mãe mais do que isso.
Eu amo a minha mãe.

Uma homenagem singela,
Para ela,
Lisiane tagarela,
A mãe mais bela,
Que eu já tive em toda a minha vida.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Desabafo

Foi num dia de lambanças desses que compõem a minha vida que eu conheci aquela puta desgrenhada. Na realidade nem puta ela era na época. Era uma aspirante ou algo assim. 

Lembro que algum de nós dois reconheceu alguma afinidade e decidiu conversar e eu me apaixonei perdidamente por ela. Foi mais ou menos assim que tudo começou. Não sei por que as coisas são assim. Bem de verdade eu não sei o por quê de quase nada. Me considero burro na maior parte do tempo. Não consigo descobrir a origem desses mistérios que fazem com que um desgrenhado qualquer se apaixone por uma puta desgrenhada. Talvez tenha algo a ver com ela não ser uma qualquer... vai saber?

O que importa e que é um bom assunto pra um debate bêbado e emotivo é que fazem uns 5 anos já que essa puta do diabo faz da minha vida um inferno. E sabe-se lá por que?!! No início eu até mandava umas cartas. Eu era inexperiente e meio romântico apesar de safado. E a distância impediu de certa maneira a nossa relação. Mas depois eu não aguentei mais a saudade, e burro como sou, voltei pra essa cidade e pras garras venenosas daquela mulher do capeta. Não entendo mesmo minhas atitudes, por que nas horas que eu mais preciso dela, ela dá um jeito de me liquidar de vez ou some! Mas sempre volta com aquele jeito de andar rebolanto feito uma lagarta e eu me me entrego...  Eu sou burro mesmo e reconheço. 

A nossa relação poderia ter esfriado nesse tempo de distância, cartas apaixonadas, noites em claro lembrando de nossos momentos juntos enquanto eu me acompanhava de uma garrafa de qualquer coisa e esse monte de besteira sentimental. Mas o nosso fogo era incrível. E ainda é pra falar a verdade, e eu não sei como me livrar desse estigma que a vida derrubou sobre o meu destino como uma bigorna que cai sobre a cabeça inesperadamente. Eu simplesmente não tenho sossego...


Tivemos alguns acordos de paz de uns tempos pra cá: ela tentaria a vida no cabaré e eu voltaria pra minha sarjeta, mas não deu muito certo. Nada dá muito certo nas nossas vidas. E a única coisa que chega perto de dar certo é a nossa relação errada que tanto insiste em acontecer. Não consigo resistir àquelas noites de sexo louco, cigarros, cafés, sujeira, doses e blues 'n dylan tocando no rádio. Nada tem o mesmo gosto em outra companhia, apesar de eu não ser a única dela. Na realidade eu não ligo pra isso, acho que gosto dela por que ela é uma puta mesmo, não adianta reclamar.

domingo, 3 de maio de 2009

O Sapato Velho


Mofando na gaveta,
Numa existência solitária,
O sapato velho fica lá sozinho e mofado,
Coitado...

Coitado de mim que vejo pena num sapato.