terça-feira, 22 de setembro de 2009

Nirvana

Sentado no parapeito da cobertura do prédio mais alto da cidade eu acendi um cigarro, traguei, e soltei a fumaça devagar. Me senti bem. Respirei e traguei de novo. Fazia um belo pôr-do-sol e as ondas quebravam silenciosas na praia, refletindo a vermelhidão do céu de fim da tarde. Era um fim de tarde especial, saboroso, e vermelho-fogo era uma cor e tanto. Senti que talvez o mundo não fosse regido pelo acaso. Aquele céu parecia ter sido pincelado por um pintor talentoso e inspirado, e não por probabilidades aleatórias. Ou talvez fosse só a quantidade de endorfina no meu sangue, fazendo-me impressionar com a beleza do mundo que até então estava oculta. Algum filósofo disse um dia que a beleza está nos olhos de quem vê. Pois bem, meus olhos deviam estar lindos naquele dia.

Levantei do parapeito com um pulo, dei a última tragada no cigarro e fui até o freezer buscar uma das cervejas caras que eu havia comprado com dinheiro roubado. Nem lembro de quais marcas eram elas, mas lembro que os preços eram os mais altos da prateleira de uma loja cheia de prateleiras caras e queijos finos. Mas não comprei queijo nenhum. Comprei 5 big mac's e um sundae com o mesmo dinheiro da cerveja e me lembrei de uns conhecidos meus que odiavam o imperialismo norte-americano. A vida é mesmo irônica. Aqueles ideais não me serviriam de nada naquela tarde. Tampouco para eles... coitados. Às vezes penso em me arrepender por ser uma pessoa relativamente brusca, mas esta é apenas uma das coisas que passam batidas pela minha cabeça sem receber a atenção que gostariam.

O sol já havia sumido por debaixo das montanhas no horizonte quando terminei minha terceira cerveja e ouvi a campainha tocar. Abri a porta com outro cigarro aceso entre os dedos, uma sobrancelha erguida e voz de bandido:
- Just in time, baby.

Já me criticaram muito na vida por eu ser uma pessoa que gosta da cultura norte-americana. A vocês que muito me dizem eu digo: "Fuck you, bastards!". Gosto muito de muitas coisas brasileiras apesar da cara de gringo cabeludo. Mas prefiro blues à bossa nova. E que se fodam, tanto faz o meu gosto musical. Sempre uso fones de ouvido, ao contrário de milhões de babacas que infelizmente chegaram a nascer. Espero que vão todos para o inferno ser enrabados pelo pinto incandescente do diabo todos os dias ao longo de toda a eternidade. E espero que a eternidade seja longa o suficiente para nunca pegarem gosto pelo castigo.

- I know -disse ela enquanto clicava um isqueiro estiloso de chama verde - Passei fazer umas comprinhas antes. Tcharam! - E foi então que eu vi aquelas mais de 10 sacolas enormes e cheias no corredor.
- Quem trouxe tudo isso aqui em cima?
- Mandei o taxista trazer.
- Hummm, gibis!
- Comprei pra você, gostou?
- Yá! ... Wow, quanto cigarro! ... Roupas... roupas? Sobretudo... calça, colete verde. Dois de cada...
- Sob medida! Há! - e deu uma piscadela malandra.

Carreguei tudo pra dentro, mijei uns dois litros, lavei as mãos e subi as escadas que davam para a cobertura. Ela estava debrussada no parapeito com uma das nossas cervejas caras.
- Pra que tanta sacola?
- Só pra gastar dinheiro. Torrar à vontade dá prazer mesmo. Passei naquela lojinha de charutos do shopping e comprei uns 12 isqueiros. Depois passei na loja de caça e pesca e comprei uns brinquedinhos pra nós.
- Molinetes?
- Trouxe uma semi-metralhadora pra mim, uma 12 pra você, uma 9 mm pra cada um e um moooonte de munição - disse ela contando cada item nos dedos da mão - Outra hora a gente compra mais. Pensei em trazer uns fogos de artifício, mas achei que hoje a gente não iria precisar.
- Por essas e outras que eu te amo com a intensidade de um traque de São João.
Busquei mais uma cerveja pra cada, duas cadeiras, e o cinzeiro era o chão.
- Você viu o pôr-do-sol hoje?
- Vi! Parecia um quadro!
- Foi o que eu pensei. Faltam 30 segundos, tem algo a dizer?
- Não sei... Tenho... Acho que a gente pode fazer um brinde - 5 segundos de silêncio. Aproveitei para tomar um gole enquanto esperava - Às bostas vivas do mundo, que hoje, mais do que nunca, são bostas mortas - disse ela levantando a latinha reluzente.
- Saúde! - bati a minha latinha na dela.

E então o primeiro estouro aconteceu. E eu senti como se uma onda de calor prazerosa atravessasse o meu corpo. Foi como um afago na alma. Abri um largo sorriso de felicidade na sua forma mais pura, olhei para o lado e vi que ela tinha o mesmo sorriso no rosto. Encostei a minha cabeça na dela e traguei.

O segundo estouro veio ainda antes do primeiro prédio vir ao chão, e a partir daí o terceiro, o quarto o quinto, o sexto, o vigésimo oitavo... Eram como os fogos de artifício que eu via pela TV do colo da minha mãe ou da minha vó toda virada de ano.
E eu me sentia no colo do universo.Tão confortável quanto um feto no útero. O som do ruir daquelas construções parecia uma cantiga de ninar e o universo continuava embalando o nosso berço.
O fogo e a fumaça preencheram o céu como pinceladas bem dadas, e o último estouro, já bem distante do nosso mirante, não pôde ser ouvido. Mas a chama da explosão pareceu-me um beijo de despedida mandado de longe. E eu sabia que sentiria saudades...
E a cidade toda veio abaixo. Com a sutileza do farfalhar de uma árvore no vento do outono. Que derruba todas as suas folhas que por segundos flutuam suavemente para depois se decomporem na terra úmida.
Se a beleza está nos olhos de quem vê, naquela noite ela estava nos meus. E nos dela.

2 comentários:

Jotta disse...

Eu conheço esse céu... q saudade dele. Acho q meus olhos estão preisando sintonizar melhor o q está a minha volta.
Textinho massa, me amarro em contos e qdo. são bem escritos, "better" "Is very good" americano tu viu? kkkkk

até

Jéssica Veiga disse...

simplismente um dos melhores textos de blog que já li. realmente good, baby.! (: