segunda-feira, 27 de julho de 2009

Nada mal

Atravessou a rua de olhos fechados para saber como seria a sensação. Primeiro passo, o segundo, o décimo terceiro e por fim um tropeço no meio-fio do outro lado. Um tropeço feio, pois gerou uma queda fenomenalmente azarada da qual Carlota saiu com a clavícula esquerda fraturada e 3 pontos no queixo. Bem, poderia ter sido pior se ela tivesse quebrado as duas clavículas ou fraturado o crânio. Mas dado que eram 3 e meia da madrugada e nenhum carro passava naquela rua, não tinha muito sentido pensar em hipóteses mais desfavoráveis. Que azar.

"Que burrice", pensaram alguns amigos e familiares. E o maior problema de Carlota, maior que a fratura e os ferimentos, foi justamente parecer uma anta de porte menos avantajado perante aos seus conhecidos. Ela não poderia esconder o gesso que carregaria por quase um mês e nem os pontos e o sangue que às vezes escorria do queixo quando ela falava ou ria demais. Portanto, inventou uma história para não precisar declarar a verdade cruel. Pena que ela usou tanta criatividade.

O que aconteceu foi o seguinte: Ela voltava de uma festa de aniversário na qual a bebida sobrava. Pensava seriamente em asneiras mil, pois em seu sangue também a bebida sobrava. E caminhar por cerca de 12 metros de olhos fechados para sentir a sensação era um desses pensamentos. Assim que levou o baque e deu um pequeno urro de dor e indignação, começou a chover. Carlotita então juntou-se, apoiou-se no muro da calçada e caminhou até o abrigo mais próximo. Ligou para sua mãe e contou por alto o que havia acontecido. "Mãe, machuquei o joelho, vem me buscar aqui na rua da prefeitura?", disse ela à mãe, "O joelho? Filha, olha a hora!! O que você tá fazendo aí a essa hora?? Tô de pijama, minha fiha.", respondeu. "Mas tá foda, mãe. Tá chovendo e tudo...". Resumidamente, mesmo contrariada e de pijamas sua mãe foi buscá-la às 3 e meia da manhã na rua da prefeitura.

E aqui é que fica o drama da história, na periculosidade de se inventar uma desculpa mal inventada para uma cagada triste. Já bastava o nome infeliz que ela carregava. E não era a sua intenção parecer mais ridícula. Então seu cérebro começou a trabalhar.
Por maior que fosse a quantidade de álcool que ela tinha ingerido, ela sabia que tinha no máximo 10 minutos até que sua mãe chegasse.
"Pensa, pensa, pensa!", pensou ela durante a espera... e não conseguiu nada muito melhor do que isso, teria que improvisar. E eis que chega a senhora sua mãe de pijama de seda e uma expressão mista de sono e indignação em seu rosto.
"Que diabos! O que é isso, filha! Quanto sangue!! Vou te levar no hospital.”
Mãe é mãe, e nessas situações elas esbravejam e gritam de indignação e desespero por vários minutos.
"... mas que merda você fez afinal de contas?” perguntou ela na sala de espera do hospital.
Neste momento os olhos de Carlinha encheram d’água e simulando voz de choro ela disse:
“Eu tava voltando da festa da Paula pensando na vida, como todo ser humano tem o direito de fazer quando de repente um mendigo me abordou tentando me assaltar. Eu disse pra ele que não tinha nada, mas ele queria me fazer mal e me forçou a beber meio litro de pinga.”
“Mas...”
“Não me interrompa, mãe!... Depois disso, ele me deixou ir embora, mas enquanto eu caminhava, ouvi um barulho estranho nos arbustos lá da prefeitura. Me aproximei com cautela para verificar. Cheguei um pouco mais perto... Um pouco mais perto... Um pouco mais perto... Quando de repente um macaco pula em cima de mim, me morde no queixo e depois me joga no chão e sai correndo. Foi aí que eu caí e me machuquei.”

A partir desse dia, Carlota ganhou em popularidade no seu colégio quando começaram a chamá-la de garota-macaco.

2 comentários:

André Maciel disse...

É sempre mais fácil por a culpa no macaco.

Mas deveriam ter passado a chamar ela de menina-pinga. Beber 1l de cana é só para os campeões.

Jotta disse...

Desculpas ridiculas são a minha especialidade.
Além de machucada e achincalhada com o nome e apelidos medonhos, será também processada pela patrulha ecologica de plantão. Essa turma ñ amolece nunca!

bços