quinta-feira, 21 de maio de 2009

Margem

Sentado na varanda e pensando enquanto os piolhos lutavam para se locomover através de sua barba emaranhada, ele não via razão para levantar daquela cadeira de balanço. Há muito tempo não tinha obrigações a cumprir a não ser conseguir comida para si próprio. E a falta de obrigações o privaram da convivência social. Apesar de que mendigos vivam e convivam em cidades cheias de pessoas, para seus semelhantes humanos (semelhantes no aspecto genético) eles estão mais para postes quebrados e falantes ou cachorros sarnentos. Nenhum poste falante deve ter muitas obrigações a meu ponto de vista. Do ponto de vista dele também não.

Ele dá uma coçadinha naquela barba fedida e caem uns 4 ou 5 piolhos no chão. Seu cachorro (Snif) que está deitado logo ao lado olha para os piolhos que caem e pensa "pelo menos não são pulgas". Devem ser umas 5 horas da tarde e começa a esfriar, mas não é motivo de preocupação e ele permanece na varanda olhando o movimento da cidade.

Olhando o movimento? Por que raio ele olharia o movimento? Além de tudo o que há de ruim nessa vida, mal existe movimento naquele bairrozinho de merda a não ser uma criançada indo comprar pão para a vó ou um carro que passa a cada meia hora. E ele pensa nisso! Ele pensa: "que monotonia do cacete...". E o cachorro curiosamente pensa a mesma coisa, ele pensa: "que dia saco". E os dois raciocinam e chegam à conclusão de que a monotonia tem deixado suas vidas mais chatas do que poderiam ser de fato. 

E partindo do princípio de que suas vidas não têm tido lado bom em nenhum sentido, eles decidem quebrar com a monotonia. Levanta-se um, levanta-se outro, o mendigo junta seus pertences, o cachorro não, e começam descer pelas escadas. Moravam no sétimo andar para não serem alvos fáceis de bandidos sádicos ou de sádicos que não são bandidos. E também por que o número 7 é um número bonito. 

Chegam ao térreo, saem do terreno sem muro do prédio abandonado, atravessam a rua, passam pela padaria, um carro passa por eles, até que passam por um córrego. O mendigo se abaixa na margem, lava o rosto e bebe um golão d'água esperando não pegar ameba ou esquistossomose. O cachorro também. Levantam-se e continuam a caminhar. 

A cidade é grande e eles estavam no limite dela. O bairro no qual moravam era o último na sua direção - Sul, sudeste ou qualquer outra. Os dois caminham por umas duas horas com seu destino já mais ou menos definido. Conhecem suficientemente bem aquelas ruas. Snif descola um lanche numa padaria, o mendigo também e a obrigação diária dos dois acaba ali.

Chegam a um bairro relativamente próximo do centro. Vêem-se ali uns postos de gasolina, uns supermercados, um trânsito movimentado e bem mais do que uma padaria. Passam discretamente por todas aquelas pessoas mais ou menos parecidas com eles dois, entram numa ruela, forçam um portão velho feito de compensado e passam por ele. Sobem até o sétimo andar reparando na possível existência de uma vizinhança perigosa e nada encontram para a sua felicidade. Estão sozinhos naquela contrução velha, inacabada e disponível. Cada um joga seus pertences no chão de uma provável sala ao lado da varanda, um senta-se recostado na parede, o outro deita sobre as patas cruzadas e suspiram. O vento sopra de leve.

A mureta da varanda inacabada é baixa, tornando-se perigosa. Mas nenhum dos dois tomaria um porre ali em cima. Assim, sentado e recostado ou deitado sobre os membros cruzados, eles permanecem. 

Lá embaixo, no mundo, um carro buzina, um ônibus pára, um homem fuma, outro conta uma piada. Uns riem e outros choram.  Todos cheios de barulho e iluminados pelos postes de luz que começam a acender. O cachorro se coça e voam algumas pulgas. O homem percebe e se preocupa. Assobia para o cachorro, coça a barba fedida e dá um sorriso de satisfação.

1 comentários:

Kiwii disse...

que existência medíocre a deles!
:~