terça-feira, 29 de maio de 2012

Me enveneno

Pé no abismo,
Amor pequeno,
Dou as costas,
Não aceno,
Paro indeciso,
E me enveneno.

Não arrisco,
Não receio,
Sacrifício,
Tão suspeito.

Me vejo hostil,
Comigo mesmo,
Olhar febril,
Me olha do espelho,
Os olhos fecham,
E me enveneno.

Portas fechadas,
Há tanto tempo,
Eu já não sei,
Como me aguento,
Canso de espera,
E me enveneno.
Esse vício maldito,
De não poder parar,
Nem que nem saiba para onde estou indo.
Por medo de parar de vez.

Esse estresse maldito,
Que convive comigo,
Incendiando o rastilho,
Do fim do meu juízo.
Que se expressa ou se explode,
Ou escorre pelo ouvido.

Como cano entupido,
Vaza o ralo encardido,
Da paciência que não tenho tido,
E da paciência que eu nunca quis ter.

Quero apenas saber,
Do que é que eu preciso,
Pra poder dar sentido,
Ao caminho que tenho seguido.

sábado, 12 de maio de 2012

Eu ouço um som,
Eu ouço um sonho,
Sinto livrar-me,
De um demônio.

Sinto soar,
Sinto gravar,
Em breve instante,
O fustigar,
Das cordas soltas,
De minhas tolas,
Gotas d'água,
Que escorrem por estrofe inacabada.

Gravo nos dedos,
No dedilhado,
Em um lamento,
Improvisado,
E num bend a um tom menor,
O silêncio da minha voz,
Se amplifica.

Mas o ar me rasga ao fim do dia,
Quando termina a melodia,
Quando meu canto ainda esmola,
Como um pássaro na gaiola,
Pela liberdade.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Aula

Grego,
Para mim,
Que falo português,
Isso é grego.
___________ Tenho tédio,
___________ Tenho um sono sem remédio.
Com isso, 
Não me entendo,
Para mim,
Isso é grego. ____________________ Aula,
_______________________________ Por que tão diária?
_______________________________ Por que me querer o tempo inteiro?
_______________________________ Eu não passo de um pária,
_______________________________ De um infeliz,
_______________________________ Que não gosta de nada que rende dinheiro.
Não nasci para estudar,
Encerrado em sala branca,
Chaveado, sem fiança,
Tenho uma natureza escrota,
Que me leva à bancarrota,
E o pior é que não sei ser diferente,
Dessa merda. ____________ Acho que sou meio selvagem,
________________________ Primata,
________________________ Primitivo,
________________________ Abestado,
________________________ Bicho burro,
________________________ Nasci no século errado,
________________________ Ou do lado errado do mundo...
________________________ Sei que por mim agora eu estaria em outro lugar.

sábado, 7 de abril de 2012

Velho Adeus

Me despeço do cigarro,
Como de um ente querido,
Me despeço solidário,
Do ente ferido.

Ferido no orgulho,
Pela prova cabal,
De que a batalha bestial,
Que tenho perdido,
Apesar de insistido,
Significa não mais do que fraqueza,
Não mais do que um limite a mais a ser revisto...

Me despeço revestido,
Mas nem sequer um resquicio,
De certeza,
Percorre a sabedoria,
Da minha decisão.

Se decido indeciso,
Pelo sim ou pelo não,
Sei que falta-me sentido,
Sei que falta-me a razão.

Mas despeço-me num sopro,
Me despeço num suspiro,
Como o de quem reconhece o perigo,
A vergonha,
E a franqueza,
Que uma fraqueza pode proporcionar.

Despedir-se,
É um ato violento,
É submeter-se ao duro sacrifício,
Da saudade.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Na Solitária

Na solitária eu nasci,
Inofensivo,
E cresci bem,
Ou mal acompanhado.

Na solitária eu aprendi,
Que a ilusão da companhia,
Não passa de ilusão,

Por mais real que possa parecer,
Não transparece,
É turva como água suja,
E perene como escultura,
De areia.

Na solitária eu virei escultor,
E ilusionista,
Inventei, esculpi, me iludi,
Mas permaneci,
Eremita.

Na solidez da minha solidão,
Sou lúcido,
E sozinho.

Só que ainda não sei se disso,
Eu devo tirar lição,
Ou se não devo tirar nem pôr.

Pode ser que o melhor a se fazer,
Seja saber fazer companhia,
Para si mesmo,
E só...

segunda-feira, 12 de março de 2012


Na hora que o livro acaba,
Bate uma saudade,
Como a de alguém que parte.

Os olhos marejam de sincera,
E insensata,
Humanidade.

Terminar uma história,
Que não é sua,
Faz de si um personagem incógnito,
Que espreita ansioso,
Pelo desabrochar de um final que, melhor seria,
Não chegasse nunca.

É despedir-se em silêncio,
Assentir pesaroso,
Sem poder expressar um adeus,
Que cimente o vazio deixado,
Por quem se vai.

Nada mais triste,
Do que despedir-se entristecido,
De ninguém.

Se eu tivesse um desejo a ser realizado,
Neste dia de hoje,
Eu desejaria trocar algumas palavras,
Com quem acompanhei por tantas linhas e tantas páginas,
Que não tem lugar no tempo,
Ao contrário de mim,
Preso ao esvaziar da ampulheta invisível de uma vida real.

Eu gostaria de poder tocar,
Ver,
Sentir o cheiro e a brisa,
E nada mais.

Uma história que toca o profundo,
Nos desfaz em saudades,
E nos torna melhores personagens.